Dia 1 de novembro de 2017, véspera de feriado de finados, horário por volta de 21h, bairro de Botafogo, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A localização exata do incidente é mostrada abaixo:
Eu tinha saído da faculdade, na Urca, e confesso que fiquei um pouco indeciso em relação a qual caminho tomar, tinha algumas possibilidades, como ir pela orla de Copacabana, Ipanema e Leblon; ou ir por Botafogo, tanto internamente pela Rua São Clemente (perigoso, via muito movimentada), pela Rua Mena Barreto (quase tão movimentada quanto a São Clemente, e estreita em vários pontos) ou pela Rua General Polidoro, margeando o cemitério São João Batista, algo que pra mim não tinha nenhum problema e fiz várias vezes. Era o caminho mais seguro, e em todas estas opções eu ainda poderia seguir o cemitério e entrar no túnel em direção a Copacabana ao invés de seguir pelo Humaitá e Lagoa Rodrigo de Freitas.
Pois bem, escolhi ir pela Mena Barreto, na lateral direita como manda o figurino. Estava, sim, em uma velocidade considerável, normal porque estava na rua com trânsito, entre 30 e 40 km/h. Um carro me ultrapassou lentamente (levando em conta a diferença de velocidade em que estávamos) e da faixa lá da esquerda veio um carro mais lento chegando pro canto direito. Eu imaginei apenas que o cara fosse mudar de faixa, mas não, ele continuou vindo na minha direção com a intenção de parar o carro na calçada ! Eu não estava ultrapassando pela direita, não costumo fazer isso, mas como ele estava em velocidade menor, eu já estava passando por ele, que foi chegando pro lado, chegando e … 💥.


Curiosamente na imagem tem um carro parado sobre a calçada, aparentemente avariado. Ou seja, a prática de estacionar ali parece corriqueira. Imagem: Google Maps.
Eu não caí, não aconteceu nada comigo nem com a bicicleta, apenas fechei os olhos quando senti que a colisão seria inevitável e continuei. A primeira coisa que fiz após o grande ruído que ouvi foi frear uns 30m adiante, e tive a seguir dois temores: o primeiro de ter ocorrido o pior e eu me ver caído no asfalto lá atrás. Quando olhei pra trás gelei, mas o que estava no chão era o para-choques do veículo! E aí veio o segundo temor: voltar pra ver o que eu tinha causado, já pensando “vou perder meu PIS, minhas férias, meu décimo-terceiro pra pagar o prejuízo do sujeito”.

Ele saiu desesperado do carro, aí meu pensamento mudou “o cara vai me bater, me matar, chamar a polícia, vai dar ruim pro meu lado”. Aí eu fui falar com ele, tentando amenizar as coisas, falando “não sei como isso aconteceu, não tem explicação, não sei o que te falar” e ele “minha namorada vai me matar, o carro é dela, eu trabalho de Uber, tô na rua há quase 18h, cansado …”. Eu até propus mandar uma mensagem pra namorada explicando que foi uma coincidência, mas ele fotografou o estrago, mandou mensagem e ela não brigou com ele.

Daí em diante eu fiquei tentando ajudar o cara, tentando encaixar o para-choques, mas as peças de fixação estavam quebradas, não encaixavam nas porcas e parafusos. O farol do lado esquerdo, contrário ao do choque, ficou pendurado ! Depois, conversando com ele, acho que a explicação para aquilo foi uma espécie de alavanca que fizemos, ele freou o carro na hora que me viu e eu estava rápido, então ele fez força “pra trás” e eu “pra frente”, sei lá. A pedaleira (não sei se o nome é esse) que instalei no eixo traseiro da bicicleta para dar carona na garupa para algumas pessoas se encaixou exatamente entre o pneu do carro e o para-choques, imagina se esta peça tivesse entrado na roda do carro??? De qualquer forma aparentemente algo já devia estar fragilizado naquele carro, eu não acredito até hoje no estrago que ocorreu!
Enquanto ele catava pedaços de plástico embaixo do carro, a lâmpada do farol de milha etc eu fiquei sinalizando o trânsito. Aí ficamos tentando deixar o carro pelo menos “andável” até ele chegar em casa, quando um morador de rua nos chamou e perguntou se precisávamos de arame ou fios pra amarrar a peça. Ele arrumou uns pedaços de cabos elétricos e amarramos o para-choques. Eu agradeci o motorista por não ter me matado (risos de nervoso) e ele me agradeceu por ajudar, “que se fosse outro teria ido embora sem ajudar” etc. nos abraçamos, ele entrou no carro e ficou ao telefone.

Eu fiquei esperando ele ir embora, enquanto enviava mensagens explicando o que tinha ocorrido aos colegas de faculdade, de alguns grupos e pra minha família, e foi então que a polícia parou do lado dele. Mandou ir embora, por estar atrapalhando o trânsito, e ele disse que se envolveu em um acidente comigo, o policial perguntou se estava tudo bem comigo e acabou por aí, graças a Deus.
Ele foi embora e eu fiquei um tempinho pra manter certa distância em relação a ele, que realmente não estava bem, visivelmente exausto de cansado. Eu já tinha passado por emoções naquela noite!