Em janeiro de 2025 estávamos nos preparando para uma mudança, planejada e parcialmente implementada em 2022, uma mudança de moradia, lugar, etc então começamos a nos programar novamente para isso. Mas, no começo do ano, após uma segunda-feira insana em que além de caminhar com muitos cachorros, incluindo um labrador grande e pesado, voltei à Academia Carioca, senti um incômodo na virilha, desta vez do lado direito. Para quem leu a primeira cirurgia que fiz, em 2015, deve ter adivinhado o que estava acontecendo. Quem não leu, recomendo o link abaixo.
Pois bem, temi pelo pior mas já tinha quase certeza do que se tratava, pelo tipo de dor que eu estava sentindo. Então comecei a maratona de exames e consultas, no sistema público. E de fato, foi uma maratona, e já adianto: se este texto começou em janeiro ainda vai ser longo, pois operei apenas em novembro! Contudo, diversos fatos curiosos ocorreram, e decidi reunir todos aqui neste artigo:
Pois bem, fui na consulta na Clínica da Família, distante poucos quilômetros da minha residência e me examinaram. A suspeita se confirmou, mas para ter 100% de certeza me recomendaram fazer uma ultrassonografia. A indicação era para o novo “Super Centro de Saúde” que fica em Benfica, zona norte da cidade, mas ainda para alguns meses à frente. A procura e os atendimentos devem estar muito grandes, imaginei. Neste momento decidi não me mudar de cidade enquanto não fizesse a cirurgia, vai que eu me mudo, e sou impedido de trabalhar devido a este problema?
Passados alguns meses, chegou o dia: usei o Metrô e um ônibus especial, em São Cristóvão que faz o transporte de pacientes ao Super Centro (excelente serviço), passando em alguns bairros nos arredores. Cheguei um pouco antes do horário marcado, mas… esperei quase 3 horas para ser atendido! Exame realizado, médico e enfermeiras muito bem-humorados, eu com a barriga toda lambuzada, laudo em mãos, tudo certo, nada resolvido: mais uma vez eu teria que me submeter a uma cirurgia aff.
Comuniquei aos meus amigos que aguardavam a minha mudança sobre o ocorrido, uma tristeza pois todos, incluindo eu obviamente, estavam ansiosos para que eu fosse logo. Mas era praticamente um consenso de que seria melhor eu passar pela cirurgia por aqui, resolver e depois fazer o que tiver que ser feito.
A odisseia continuou, pois a cada consulta e exame realizados, um prazo de alguns meses à frente era dado. E a minha preocupação maior era: estava apenas passeando com cachorros, que de uma forma ou de outra me ajudava satisfatoriamente a sustentar casa e família, estava com autonomia (MEI) regularizada e paga em dia, mas e quando eu ficasse parado, de licença devido à cirurgia, como seria? Em 2015 eu estava empregado… mas vamos lá, continuando.
Fiz diversos exames e consultas durante o ano, sempre em atendimento público, até que em determinada etapa me foi solicitado fazer o exame cardiológico para realizar o risco cirúrgico, só que eu já tinha uma consulta agendada para mostrar estes exames, no Hospital Gafreé Guinle novamente, dois dias depois. Qual não foi minha surpresa quando me informaram que só tinha data para realizar os exames bem depois da consulta, quase um mês depois, não tinha vaga para antes! Reclamei, falei um bocado, dizendo que isso estava me atrasando a vida durante todo o ano, que 2025 foi um ano perdido por isso, que era um absurdo, nada funciona etc etc aí a atendente, via Whatsapp e um pouco mais tarde, me disse que a minha reclamação tinha sido direcionada à chefia, e que conseguiram vaga em postos médicos de dois bairros relativamente distantes para mim: Ramos ou Olaria. Me perguntou qual seria melhor pra mim e eu disse que tanto fazia, afinal os dois bairros são limítrofes um do outro! E então foi agendada já para o dia seguinte o exame cardiológico em Ramos, dentro da Favela Roquete Pinto… será que o exame cardiológico já seria entrar e chegar ao local?
Mas ok, brincadeiras à parte, o acesso foi rápido e prático: ônibus e BRT, menos de 1h depois eu já estava entrando na comunidade. Andando algumas centenas de metros, cheguei ao local e me informei, dizendo que tinha horário marcado. E isso quer dizer algo? Não: enfrentei uma fila aleatória da mesma forma, e com pessoas que tinham agendamento para dias depois e foram “ver qual era”, se conseguiriam ser atendidos. Em determinado momento, quando um paciente saiu do atendimento, eu me levantei para perguntar se iria demorar, quantas pessoas teriam na minha frente, se eu seria chamado pelo nome… mas um sujeito que estava sentado na muretinha ao meu lado se levantou, se meteu na minha frente falando “é minha vez, é minha vez”… kkk eu só rio dessas figuras ignorantes, falei com calma e educação com o cara e com a médica e ele “tá, mas é minha vez”.
Ok, vai lá, bebezão.
Aguardei mais três pessoas e fui chamado: por sorte eu tinha feito uma “depilação” no peito há dois dias e era necessário fazer isso para ter melhores resultados no exame (eu nem lembrava), mas a médica estava totalmente descoordenada no procedimento: repetiu o exame quatro vezes (!) e ao final desta quarta tentativa comentou que o aparelho parecia estar com baixa voltagem, pois meus batimentos estavam muito lentos. Eu brinquei com ela dizendo que “estando longe da esposa é assim mesmo, mas quando estou perto o coração dispara” mas eu disse que (acho que) sempre foi assim e ela disse que “poderia” ser normal, que era para eu não me preocupar.
Sabem como é homem, né… dentro do BRT, lotado, voltando do atendimento, eu já estava pesquisando sobre Braquicardia e os resultados eram os piores possíveis… mas depois conversando com algumas pessoas soube que, devido ás minhas condições de estar sempre caminhando e fazendo atividades físicas, o coração fica mais eficiente e bombeia mais sangue de uma vez só, não fica batendo com mais frequência para suprir isso. Bom, então tá bom…
Neste dia, após os exames, combinei com esposa de irmos visitar o Museu Nacional, que estava sendo parcialmente aberto ao público, vocês podem conferir este passeio aqui:
Dois dias depois retornei ao Gafreé Guinle e levei os exames. Chegando lá me perguntaram sobre o laudo cardiológico, para fazer o risco cirúrgico. E eu sei lá? E me disseram que tinha que ter o laudo! Misericórdia, expliquei a situação e me recomendaram voltar o posto de Ramos para obter o laudo affffffff mas pelo menos adiantaram as outras situações, registrando os demais exames realizados, ficando faltando então o risco cirúrgico. E duas datas foram definidas: 30 de outubro (risco cirúrgico) e 4 de novembro (conversa com anestesista). Isso ainda vai dar o que falar, aguardem…
Nisso já estávamos em julho de 2025, na metade do mês. Eu tinha conseguido um emprego em uma boa empresa na Barra da Tijuca, da área de medicamentos manipulados. Minha ideia era estar empregado lá, pelo menos, até fazer a cirurgia e conseguir o auxílio-doença, me estabilizando financeiramente, mas infelizmente alguns fatores me impediram de continuar lá, incluindo que a patroa estava grávida e eu seria provavelmente o substituto dela durante a licença-maternidade, mas o período da minha cirurgia possivelmente coincidiria com a licença dela; que ela estava me treinando freneticamente para eu aprender tudo o mais rápido possível, mas em algumas tarefas cruciais eu não estava rendendo o quanto esperávamos; e que cheguei a ter problemas de saúde devido ao ritmo intenso de tarefas e atividades. Fiquei lá menos de um mês, e pedi demissão exatamente no dia em que chegaram o cartão de passagens, e outros benefícios. Um dai eu conto mais detalhes sobre isso, incluindo minha saga indo pela primeira vez ao Hospital Salgado Filho, no Méier, devido uma crise que tive, aparentemente de estafa.
E isso por que eu não mencionei que estava precisando sair toda hora para resolver questões relativas à minha cirurgia, algo desagradável também
Pois bem, retornei no posto médico de Ramos direto, no dia seguinte, sem avisar nem entrar em contato. Mesmo roteiro: Ônibus, BRT, chuva e favela, tranquilo. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e ser informado que o posto não tinha cardiologista! Achei um absurdo, mas na parte da realização do exame o procedimento pode ser feito por “qualquer” médico. E agora? Voltei direto na Clínica da Família perto de casa e… consegui com eles!
Eu gosto de passear, mas deste jeito não, né…
Enfim, pouco depois, fui no Hospital Gafrée Guinle e levei o que faltava. Lá me disseram que não tinha necessidade, eu poderia ter levado quando fosse no dia 30 de outubro, mas ok, eu prefiro resolver tudo o quanto antes. E então, mais uma etapa cumprida: agora era só aguardar o dia 30 de outubro e o dia 4 de novembro, datas que passavam o período do parto da minha ex-patroa, mas sabe-se lá, eu me lembro que quando pedi demissão e expliquei toda a situação, ela me agradeceu por ter sido sincero, ficaria de fato muito confuso.
Memorizei as datas: 30 de outubro às 13h e 4 de novembro às 9h20. Olhei, conferi, confirmei, anotei na agenda do celular, tudo ok. Avisei os tutores dos cachorros que passeio sobre isso e já deixei tudo combinado: como a primeira consulta seria à tarde, conseguiria trabalhar de manhã. Mas, eu estando em Ipanema passeando com uma Pastora Alemã filhote (que assumi para passear, mesmo sabendo que aquilo poderia me forçar e piorar a situação da hérnia) por volta de 11h recebo uma ligação. Atendi e era do hospital, falando meu nome e o motivo da consulta. Eu confirmei que iria, estava tudo ok para estar lá às 13h, mas a atendente me disse que a consulta seria às 9h20!!!
QUÊ???
Eu teimei com ela ao telefone, falei que tinha algum equívoco, debatemos um tempo, até que eu consegui abrir minha mochila para ver os papeis (eu já estava com a mochila pronta na véspera, e da rua eu já iria para a consulta), nisso a filhote quase mordeu os papeis, estava ventando e quase voaram, entrou terra na pasta pois apoiei os documentos dentro de um canteiro, e consegui ver o horário e dizer “aqui, estou com o papel que vocês me deram e aqui diz… 9h20!!!”
Quase caí pra trás! O que estava acontecendo? Como isso foi acontecer?! Fui informado de que precisaria remarcar via whatsapp uma nova data. Perguntei se eu não poderia ir naquele momento, se não poderia ir no dia 4 e fazer tudo, mas só recebi respostas negativas. Ok, pedi o número para remarcar e… eu teria que entrar em contato após a segunda semana de novembro pois não tinha nenhuma vaga próxima, apenas para 2026!!! Eu teria que entrar em contato para saber se a agenda do ano que vem já estaria aberta!
Naquele momento “fiquei sem chão”, amargamente decepcionado tanto comigo quanto com a situação: esperar mais alguns meses para ser operado? Mais sofrimento, dor, limitações e inconvenientes, e talvez até uma piora no quadro?
À noite, após conversar com uma grande amiga e com uma tutora de dois cães que eu passeio, soube que eu poderia obter este risco cirúrgico em outro profissional e levar lá no hospital no dia 4 de novembro. Na mesma hora procurei uma clínica em São Conrado que faz exames a “preços módicos”, acessei o site e reservei uma consulta – paga obviamente – para o dia seguinte, sexta-feira. De manhã cedo, antes de 7h, enviei uma mensagem para o whatsapp do hospital dizendo para não cancelarem minha consulta do dia 4 pois eu iria conseguir o risco cirúrgico, e curiosamente enviei uma mensagem tão enfática que me responderam “ok” dois minutos depois, naquela hora da manhã.
Pois bem, no final da tarde daquela sexta-feira 31 de outubro, que eu estava livre, fui na consulta e consegui o risco cirúrgico! Agora era só levar na semana seguinte, dia 4 de novembro, então já confirmei horário, tudo certinho, para não me equivocar novamente.
No dia 4 de novembro fui ao hospital, na hora marcada, mas novamente esperei um tempão para ser atendido. Tudo bem, tudo tem sua hora, vamos aguardar… me chamaram, entrei no consultório e tudo foi acertado, sendo que dessa vez a cirurgia seria realizada com anestesia raqui e de maneira aberta, não seria por videolaparoscopia … por falta de material! Ok, método seguro, mas isso me gerou certa apreensão, ainda mais por que o hospital, apesar de ser ótimo, estava em risco de ser fechado por iniciativa do governo federal, pelo o que percebi ao ver diversos cartazes sobre abaixo-assinados contra esta medida.
Mas ok, vamos que vamos.
A médica me perguntou se poderia ser a cirurgia no dia 18, concordei, ela imprimiu um papel com dados e recomendações, mas percebeu no sistema que seria melhor adiar por que teria algumas cirurgias complexas no dia 18, então adiaram a minha para o dia 25 de novembro. Ok, finalmente, e sendo assim e eu tendo alta um mês depois, seria literalmente um presente de Natal!
Só que… a notícia foi melhor ainda!
Poucos dias depois, dia 6 de novembro, eu estava de manhã passeando com cachorros quando recebo uma mensagem via Whatsapp, até achei enigmática e pensei ser golpe, mas como tinha meu nome e dados pessoais, respondi:

Ou seja, do nada minha cirurgia iria ser realizada! Então tentei me manter calmo e controlar a ansiedade, mas finalmente estava chegando o dia em que eu resolveria o empecilho de todo o ano de 2025. E então anotei tudo, organizei, agendei, fiz todo o necessário para estar lá no hospital no dia e hora marcada, junto com esposa.
Dia 12 de novembro pela manhã cedinho já estávamos no hospital. Fui encaminhado ao segundo andar, leito 617, e me levaram na cadeira de rodas (é padrão). Esposa foi depois, pois ela não sabia que poderia me acompanhar até o quarto da enfermaria (tinha dois leitos para pacientes apenas, diferente de 2015 quando o quarto era compartilhado com mais pessoas) e precisou fazer um cadastro enquanto eu subia.
Quando entrei no quarto notei um paciente meu xará, outro Eduardo, e que tinha sido operado na véspera para retirada da tela colocada em uma cirurgia de hérnia! Me surpreendi pois ele andava pra lá e para cá com muita desenvoltura, nem parecia recém-operado. Talvez a ansiedade estivesse falando mais alto, ele estava muito inquieto. Pouco depois esposa entrou no quarto e em seguida alguns médicos vieram fazer perguntas e me examinar. Qual não foi minha surpresa ao constatarem que a minha pressão estava alta (15 por 12!) e me veio na memória uma situação de poucos dias antes: meu pai iria fazer uma cirurgia e não fez devido à pressão estar alta também! Eu APARENTEMENTE estava tranquilo, conversando, fazendo piadas e comentários descontraídos, mas por dentro parecia que a ansiedade estava sendo mais forte, apesar de não parecer. Eu estava ansioso para passar por aquilo logo, mas seria por isso a pressão alta. Fizeram com um instrumento analógico e deu o mesmo resultado, mas me disseram que eu faria a cirurgia assim mesmo, que era normal (!) devido ao ambiente e contexto. Mais alguns minutos se passaram e eu tirei a roupa, coloquei aquele avental infame (que protege apenas a frente e não o verso, se é que me fiz entender) e fui chamado por um maqueiro para subir com ele. Deitei na maca e fui cantando o tema da vitória do Ayrton Senna (MeoDeos) porque o maqueiro era bom de direção kkk e lembrei dessa vez de acompanhar todo o caminho: curiosamente tudo fica no segundo andar (eu achava que fosse em outro andar, superior, mas acho que não tem), então entramos direto no setor de cirurgia.
Diferentemente de 2015, dessa vez não fiquei esperando no corredor, me colocaram em uma sala com várias pessoas deitadas em outras macas, aguardando também suas respectivas cirurgias. Me lembrou a sala de recuperação pós-anestésica que fiquei em 2015, apesar de parecer se menor. Ali os médicos faziam as mesmas perguntas que já tinham feito enésimas vezes antes, e eu pude saber mais sobre cada paciente. Os profissionais eram ótimos, bem humorados, atenciosos, e respondiam a tudo que perguntávamos. Até que chegou minha vez, o maqueiro conduziu minha daddo-maca até a sala de cirurgia. Ao entrar notei diferenças também: em 2015 percebi várias pessoas sendo operadas em uma sala grande, desta vez eu estava em uma sala sozinho, e ao entrarmos percebi SEIS profissionais femininas… um harém, pensei comigo, mas não falei nada, evidentemente. Todas perguntaram as mesmas perguntas novamente e eu passei da maca para a mesa cirúrgica. Ali o negócio ficou, literalmente, sério.
Deitado e conversando com todas, tentando ficar tranquilo e não ser chato, fui recebendo os primeiros cuidados. Uma delas, a que me parecia mais delicada, ia fazendo o que precisava ser feito e me falando antes o que era: então ela disse “vou fazer o garrote para colocar o acesso”, “pronto”, “vai queimar um pouquinho” … e de fato o incômodo é considerável. Só que isso se repetiu TRÊS vezes, meu braço esquerdo (ainda bem kkk) foi furado para colocar três acessos, o que me rendeu um hematoma por algumas semanas. Sendo que a primeira intervenção, assim como em 2015, acarretou um, digamos, vazamento venoso que fez a profissional limpar meu braço e a mesa algumas vezes. Dessa vez eu nem quis olhar.
Em alguns instantes chegou um homem cantando: era o médico-cirurgião! Brinquei com ele que se ele cantasse tão bem quanto fazia operações, estava tudo ótimo, e como ele disse que era melhor cirurgião que cantor, fiquei mais tranquilo. Perguntei sobre a anestesia, que seria ráqui e talvez eu precisasse contribuir ficando em determinada posição para que espetassem minhas costas, e me disseram para eu ficar tranquilo e não me preocupar com isso. Só que pouco antes disso, minhas pernas começaram a tremer muito, parecia que estavam sendo eletrocutadas, e eu comentei envergonhado que não sabia por que aquilo estava ocorrendo, poderia até ser o frio da sala, mas sei lá. Novamente me disseram para ficar tranquilo e que isso iria passar rapidamente.
Aqui abro um parênteses: durante a espera pré-operatória em casa, fiz diversas pesquisas sobre a anestesia, a cirurgia, riscos, prognósticos, diferenças, etc. E em um destes sites que pesquisei vi que o paciente poderia ser sedado e adormecer levemente, ainda ouvindo o diálogo no centro cirúrgico mas de forma inerte, e também poderia permanecer acordado mas mais tarde não se lembraria de nada. Então o que aconteceu eu não sei, só me lembro que estava conversando sobre música com o médico e – puff – estava sendo retirado da mesa e sendo colocado na maca novamente, já operado! Vi tudo daí em diante, o deslocamento até a sala de recuperação e me colocando novamente ao lado de outros pacientes. Ali fiz como em 2015, vou mexer os pés para saber se está tudo certo, mas… como era de se esperar, não conseguia, pois a anestesia ráqui paralisa tudo da cintura pra baixo, desde sensações até os movimentos. Perguntei a um dos profissionais da sala e eles me falaram que estava tudo dentro do esperado. Alguns minutos depois comecei a sentir e mexer a perna direita, e sentia algo encostado no meu pé e não sabia o que era: estiquei o olhar e era meu pé esquerdo, caído e esbarrando no pé direito, É muito bizarro, é como se ele estivesse dormente sem sangue circulando, apenas um objeto inanimado. Fiz muita força e conseguia mexer milímetros da coxa esquerda, pra cima, eu estava ficando nervoso pois vi que poderia ter alguns efeitos colaterais decorrentes da anestesia, como “síndrome do pé caído” ou algo assim, mas aos poucos fui recuperando os movimentos completos, talvez tenha feito muita força também, eu estava apreensivo com tudo aquilo. Quase 13h fui levado para o quarto, não vi a hora que fui operado, mas como fui pro centro cirúrgico por volta de umas 8h40, parece que demorou algumas horas a minha cirurgia.
Entrando no quarto fui colocado e posicionado na cama, desta vez moderna e padrão como em outros hospitais atuais. Esposa estava lá para me receber, e ali começava o trabalhoso processo pós-operatório. Dentre as dificuldades, eu não poderia dormir em posição diferente da posição de barriga pra cima (eu gostaria de conseguir, mas há muitos anos não me sinto bem com esta posição), o quarto tinha dois ventiladores de teto que não funcionavam, e o aparelho de ar-condicionado estava operacional mas fixo em uma temperatura que não era nem brisa de tão fraca.

Uma vantagem foi a que o paciente de mais cedo, meu xará, já tinha recebido alta e eu tinha o quarto só para mim. O chato é que esposa não poderia ficar pois precisava cuidar de Arthur e Ava em casa, mas tudo bem, eu me virava do jeito que fosse.

Anoiteceu e algumas vezes fui visitado por pessoas que me traziam o lanche, o jantar e medicações, na veia obviamente. Fiquei na mesma posição desde que fiz a cirurgia e passei a noite desta forma, acordando de tempos em tempos para esticar a perna ou dobrar, já que eu não estava cabendo na cama, ou inclinar ou deitar mais o colchão. Assisti um filme de terror que gosto muito, “Fenômenos Paranormais”, que é filme de terror (gênero que curto muito) mas considero mais uma comédia e um filme que indico para iniciantes no gênero. Só que após assistir me deparei com a seguinte situação: o banheiro do quarto não tem paredes até o teto, então nos quartos ao lado quem usasse o banheiro emitia… hummm, ruídos, para o quarto em que eu estava, então parecia que tinha alguém dentro do meu quarto! Além disso, eu tenho o sono muito, mas bastante mesmo, leve. Tanto que antes da cirurgia perguntei se a sedação seria suficiente para mim.

Mas, voltando, tudo isso para dizer que acordei pelo menos umas 30 vezes durante a noite: toda vez que alguém passava pelos corredores, quando alguém ia ao banheiro nos quartos vizinhos, quando alguém entrava para aplicar medicações ou medir meus sinais vitais, quando eu precisava aliviar a coluna da posição na cama, enfim, a noite durooou uma eternidade.
Engraçado era quando algum profissional entrava no quarto e eu já estava acordado antes, quando a pessoa estava no corredor: eu falava “Boa noite” e a pessoa se assustava kkkk
Outra questão, crucial, mas que felizmente não deu maiores problemas é que, pasmem, o sistema de alerta não estava funcionando. Digamos que eu precisasse de algum auxílio ou chamar algum profissional: não tinha como! A campainha não funcionava! Então eu combinei que, caso eu precisasse de ajudar, eu tocaria algum som alto no celular para chamar a atenção, pois não teria forças pra chamar ou gritar por alguém. Felizmente, e para sossego do andar inteiro do hospital, não tive necessidade e não precisei coloquei nada em alto e “bom” som para chamar a atenção.
Pela manhã acordei (nem dormi, praticamente, sem posição e acordando toda vez que ia mexer o corpo, preocupado com a área operada) e tomei café. Pouco depois ouvi uns gritos de sofrimento, não entendi o que era, mas torci que não fosse algo ou alguém vindo para o meu quarto.
Adivinhem.
Sim, um paciente chegou trazido em uma cadeira de rodas para o quarto onde eu estava. Após ser colocado na cama e continuar gritando que estava sentindo muita dor e reclamar que ninguém o atendia, comecei a falar com ele, tentando acalmá-lo. Ele estava ali para fazer uma cirurgia na Tireóide, mas estava sentindo muita dor no abdômen (?!). Cheguei a ficar preocupado se seria algo nos rins ou até mesmo apêndice, mas depois raciocinei e sugeri que fosse ar preso, gases, já que ele estava em jejum e talvez o nervosismo gerasse algo assim. Dito e feito: depois de uma profissional trazer um comprimido (talvez simeticona ou dipirona) e a esposa chegar para ficar com ele, ele começou a ficar mais calmo e se sentir melhor.
Pouco depois minha esposa chegou e ficamos conversando enquanto eu aguardava a minha alta hospitalar. Mais alguns minutos se passaram, me examinaram e me liberaram, novamente seguindo o protocolo de ser levado em uma cadeira de rodas. Mas, sempre tem que ter emoção, né… quando chegamos em frente ao elevador, faltou luz no hospital! Passaram-se uns dois minutos e ligaram o gerador para os elevadores (só tinha um funcionando mesmo), descemos e chamamos um Uber para voltar pra casa.