Mais um fim de tarde no Rio de Janeiro. Antes de seguir para a faculdade — que ficava a pouco mais de dez quilômetros do bairro onde moro e trabalho — percebi que o clima começava a mudar. O ar estava mais denso, o vento ganhava força, e o céu, outrora azul, se tornava de um cinza pesado. A previsão do tempo já indicava chuva para o início da noite, mas, otimista como sempre, acreditei que conseguiria chegar à faculdade antes que o temporal caísse.
Naquele dia, por pura distração, eu não havia levado guarda-chuva para o trabalho. Pouco depois das cinco da tarde, deixei o serviço e subi na bicicleta, acreditando que ainda teria tempo. Pedalava em ritmo constante, pela ciclovia na primeira metade do percurso, mas saindo da Lagoa Rodrigo de Freitas o caminho seria pela rua, desviando dos carros, com o pensamento na aula e na prova que teríamos naquele dia. Contudo, ao chegar ao Humaitá — no início do bairro de Botafogo — as primeiras gotas começaram a cair. Em questão de segundos, o chuvisco se transformou numa chuva forte, típica das noites cariocas em que o céu parece desabar de uma vez.
Busquei abrigo sob a marquise de um prédio, enquanto a água caía forte e os pedestres corriam buscando abrigo. Peguei o celular e mandei mensagem no grupo da turma, perguntando se muita gente já tinha chegado e se, por acaso, a professora cogitava adiar a aula ou a prova. As respostas vieram rápido: alguns colegas diziam que já estavam em sala, outros ainda presos no trânsito — mas ninguém mencionou cancelamento.
Esperei mais uns dez minutos, observando as ruas começando a ter correnteza no espelho d’água, até decidir seguir mesmo assim. A chuva não dava trégua. Quando cheguei à esquina da Rua Real Grandeza, o cenário era quase surreal: de um lado, o posto de gasolina; do outro, o muro do Cemitério São João Batista. As ruas estavam já alagadas.

Continuei pedalando, mas logo percebi que já não dava para distinguir onde terminava a pista e começava a ciclovia. Com receio de cair em algum bueiro aberto na rua, decidi seguir pela calçada, rente ao muro do cemitério. A água subia até metade das rodas — eu pedalava com os pés totalmente dentro d’água. E quanto mais avançava, mais parecia que a bicicleta afundava junto comigo.
Foi então que testemunhei uma cena digna de filme de terror: a água jorrava de dentro do cemitério pelos portões de ferro. Naquele instante, pensei que, ao chegar à faculdade, provavelmente eu já estaria incorporando o espírito de Michael Jackson dançando Thriller (rs).
Segui assim por centenas de metros, literalmente atravessando a enchente, até encontrar um trecho mais seco no meio da rua. Pedalei entre os carros, encharcado, mas aliviado por finalmente ver o asfalto novamente.
Quando cheguei à faculdade, o cenário era o oposto do caos das ruas: sala lotada, todos concentrados fazendo a prova, como se nada tivesse acontecido. Todos voltaram a visão para mim quando entrei, encharcado, deixando um rastro de água no chão e um pequeno lago sob a carteira onde me sentei. Me acomodei, tentei secar os braços e o rosto com o que dava — e comecei a responder a prova como se aquela travessia pela enchente fosse apenas mais uma parte do percurso acadêmico.
Foi apenas mais uma das aventuras de bicicleta em meio à chuva, no caminho para a faculdade.
E olha que essa nem foi a única…
Imagem de capa: Daddo Moreira