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Hérnia inguinal: histórias de minha primeira cirurgia

O ano de 2015 foi bem bizarro. Eu e algumas pessoas do meu convívio costumávamos dizer que estávamos em “dois mil e crise” tamanha coisas estranhas que ocorreram durante o ano. E uma dela foi a descoberta de uma hérnia inguinal no começo do ano: percebi uma dor forte e incômoda (claro!) após fazer muita força durante uma volta de bicicleta, me lembro como se fosse hoje, eu estava na Avenida Oswaldo Cruz, próximo ao Morro da Viúva, com a marcha pesada, e decidi atravessar a via de um lado para o outro. Como não consegui diretamente, parei e, quando foi possível, iniciei o cruzamento para o outro lado, mas estava na marcha pesada, então fiz muita força e senti algo parecido com a sensação de tecido rasgando por dentro, na virilha. Possivelmente eu já tinha aquela região sensibilizada por um incidente, também com uma bicicleta mas na minha infância, quando colidi contra uma parede e uma peça da bicicleta se chocou de forma contundente naquela região. De qualquer forma algumas pessoas têm essa tendência, e eu não estava imune a essa condição, a questão foi que, dali em diante, passei a sentir um incômodo na região e, após consultar meu pai para saber o que ele achava (eu desconfiava que fosse uma distensão) e ele já tinha feito duas cirurgias de hérnia, fui recomendado a fazer exames. constatando o problema.

Ali começou uma maratona no serviço público brasileiro: apesar das críticas, o sistema funciona, porém. O que acontece é que muita burocracia e demora acabam levando os pacientes a um desânimo e até mesmo a um desespero: conheço pessoas que aguardam anos para uma cirurgia, imagina o transtorno. Eu comecei o processo com exames em fevereiro, e fui operado no final de outubro, no Hospital Universitário Gafreé Guinle, no bairro da Tijuca, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, uma instituição federal, gerida pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e que, na medida do possível tem um atendimento bastante competente, com médicos muito capacitados.

Eu me lembro de algumas situações ocorridas durante este período, que pretendo contar em outro tópicos (inclusive uma constatação obscura sobre o onipresente Whatsapp, aplicativo de mensagens instantâneas que praticamente todo mundo usa), mas nestes texto pretendo focar apenas na cirurgia em si e no processo envolvido.

Eu me recordo que fiz os exames iniciais, fui à Clínica da Família e estive no hospital algumas vezes, em uma espécie de ciclo que parecia não acabar. Até que, de repente, em um fim de tarde de sexta-feira, eu estava trocando de roupa no banheiro do pet-shop onde estava trabalhando, quando recebi uma ligação no meu celular. A princípio pensei em não atender, mas decidi atender e qual foi minha surpresa?

-Alô, aqui é do hospital Gafreé Guinle, surgiu uma vaga para a sua cirurgia de hérnia inguinal. Você poderia estar aqui no hospital, amanhã, às 7h da manhã, para sua internação?

Tomei um susto, mas respondi positivamente, eu não teria como não ir, fiquei sofrendo por meses com aquilo, toda vez que me alimentava e passavam algumas horas um abaulamento surgia na minha virilha, do lado esquerdo, e eu precisava me deitar, colocar as pernas pra cima e aguardar que tudo voltasse ao seu lugar, sensação bizarra e horrível, sem querer entrar em muitos detalhes. Pelo menos eu tinha alguma resistência no abdômen, e nada mais que um abaulamento aparecia, mas sei de casos em que a relevância na pele era muito mais visível e proeminente.

Pois bem, fui pra casa, avisei todos que precisavam saber (mas acho que coloquei no Facebook também rsrs) e no sábado de manhã estava no hospital para ser internado. Só que inadvertidamente eu fui sem levar nada, apenas roupas e itens de uso pessoal, e chegando lá vi que o hospital não disponibilizava roupa de cama, apenas forro para a maca, e nem tinha ventilador ou ar-condicionado. As camas eram ainda daquelas que levantavam com manivela! Passei por alguns sufocos devido a isso, como calor e mosquitos (apesar do prédio ser antigo e ter o pé-direito alto, conseguia ver mosquitos no teto e o calor não se dissipava mesmo com as janelas abertas).

Passei o sábado e domingo internado e na segunda-feira de manhã esperava pelo procedimento. Eu me lembro que na enfermaria em que eu estava havia mais 3 ou 4 pacientes, cada um com uma cirurgia eletiva (sem urgência que provocasse risco maior) e estávamos conversando e até apostando para quem iria primeiro para o centro cirúrgico. Quando o médico chegou, eu já me propus a ir primeiro, como sempre penso e faço: se é pra fazer, que se faça logo. E deitei na maca com rodinhas para que fosse levado ao centro cirúrgico. Aqui começa a segunda parte da história.

Mesmo que eu tentasse ficar calmo e demonstrar frieza, estava ansioso, e acho que isso deve ser normal, afinal era uma cirurgia que eu iria sofrer, e pela primeira vez! Me lembro de olhar o teto dos corredores passando mas achava que tinha ido para outros andares, mas talvez eu tenha subido apenas um (provavelmente, pois o complexo hospitalar não tinha muitos andares). Até que então me deixaram em um corredor com uma fila de macas, com um crucifixo sobre uma das portas, e ar-condicionado forte. Mesmo embaixo de um forro eu estava tremendo, mas já não sabia se era de frio ou de apreensão.

Passados alguns minutos me buscaram e me conduziram para dentro do centro cirúrgico. Ver aqueles refletores sobre mim, apagados no momento, me despertou um misto de sensações, tanto de curiosidade quanto de medo, pois a partir dali não tinha volta. Eu corria algum risco? Poderia ter alguma alergia ou reação a medicamentos? Eu só sabia ter reação a Plazil e Digesan, que também contarei em outra oportunidade. Enfim, a partir dali era um percurso novo e novo, mesmo sendo uma cirurgia relativamente simples, sempre tem seus riscos.

Passei para a mesa cirúrgica e ficava apenas olhando para cima, conversando com os médicos e auxiliares ao redor, que estavam em um ritmo frenético. Tentei olhar ao redor e percebi que várias cirurgias pareciam estar sendo realizadas ao mesmo tempo, meio “a toque de caixa” e isso me deu medo.

ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI ALGUMAS PESSOAS PODEM TER SENSIBILIDADE AO CONTEÚDO, MAS PROMETO TENTAR SER DISCRETO

No meu braço esquerdo fizeram um garrote e inseriram o acesso venoso, mas quando olhei para o meu pulso, tinha um pequeno chafariz de sangue subindo… eu na maior naturalidade perguntei ao profissional que estava responsável por aquilo se “estava tudo bem” e ele respondeu, com suor na testa, que sim. Fiquei um pouco mais temeroso neste momento, mas ainda tentava manter a descontração e naturalidade. Uma médica aproximava uma máscara com uma névoa do meu nariz e afastava, com frequência, não sei se era um sedativo ou um placebo. Na minha errônea percepção aquilo era a anestesia geral e que iria adormecer em breve, mas demorou um pouco para o anestésico fazer feito e não da maneira que eu entendia: uma das médicas me falava que era bom eu ficar falando pois perceberia quando a medicação sedativa estivesse fazendo efeito, e eles também. E de fato, a medicação (aplicada na veia) começou a se fazer sentir: percebi que algo estava subindo pelo meu rosto, como uma dormência, minha audição começou a perceber sons de forma metalizada e não consegui concluir a frase “ôpa, estou sentindo algo estranho, tá subindo no meu rosto, estou ouvindo metálico…” apaguei, mas consegui sentir algo sendo introduzido na minha boca, como se fosse um tubo. Dez anos mais tarde eu fui saber que nestes procedimentos o paciente é entubado, que recebe auxílio ventilatório, pois o corpo desliga… ainda bem (ou não?) que só fui saber disso depois…

Recobrei a consciência em uma sala com iluminação forte (na realidade poderia ser de ter ficado inconsciente por um tempo), tentei inclinar o pescoço sobre o peito e mexi os pés. Consciente que eles estavam sem mexendo e não tinham feito nenhuma “barbeiragem” comigo, percebi uma pessoa sentada em uma mesa à frente. à minha esquerda e direita percebi outros pacientes adormecidos, o cenário parecia a “entrada do céu”, seria a pessoa sentada à minha frente o próprio São Pedro? Assoviei e ele me perguntou com aparente má vontade “Pois não, senhor?” Perguntei se estava tudo bem e ele me respondeu que sim, que eu deveria aguardar alguns minutos para passar o efeito da anestesia. Adormeci e acordei mais algumas vezes, em uma destas vezes foi com o choro de uma paciente ao meu lado, que acordou apreensiva e enjoada, disse que iria vomitar e ao fazer isso percebeu sangue, ao que o médico retrucou ser normal por ter sido entubada.

E eu ali, pleno, sem saber que também tinha passado pela mesma situação…

Após adormecer e acordar mais algumas vezes, assoviar e perguntar (perturbar) o médico, despertei já entrando na enfermaria novamente. Todos à minha volta estavam me olhando de forma meio surpresa e me disseram que eu fui o primeiro a subir e o último a descer. Estranho…

Mas ok, a partir dali comecei a falar e descrever como foi a experiência, o que aconteceu no centro cirúrgico, falando falando falando até que um médico entrou no quarto e me deu uma bronca: eu tinha acabado de passar por uma cirurgia e não podia ficar falando, com risco de acumular ar no abdômen, mesmo que a cirurgia tivesse sido por vídeo laparoscopia.

Dito e feito: dois minutos depois minha barriga parecia que ia explodir… mas aprendi a lição.

Naquele dia me comportei como o necessário, mas ainda passei duas noites no hospital. Tirei algumas poucas fotos e comuniquei nas redes que eu estava bem, mas durante este período passei por maus bocados: calor, mosquito e falta de roupa de cama. Para aliviar o calor, ficava sem camisa, mas não podia devido aos curativos. E suando atraía mosquitos, mas não tinha como me proteger, então decidi me cobrir com a capa da cama: suando em bicas, mas sem mosquitos.

Dois dias depois recebi alta e recebi a visita da Carol, sendo levado pra casa pelo meu pai.

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