Já comentei que um de meus amigos, quando estávamos juntos, era certeza de aventura, emoção e sufoco. E a ocasião desta texto não poderia ser diferente, das inúmeras ocorridas.
Como também já comentei em outros textos aqui do site, do resgate das minhas memórias, nos conhecemos durante as aulas na Escola Municipal Georg Pfisterer, estudávamos na mesma turma da sétima série. Após as aulas, que eram de manhã costumávamos sair para pedalar, e por várias vezes fomos na Vista Chinesa e Mesa do Imperador, atrações conhecidas da Floresta e Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro. Só que naquela época não era uma região tão segura quanto hoje, e olha que hoje não é tanto assim. Mas naquele tempo o acesso de veículos era liberado, e em outros trechos da floresta ocorriam crimes diversos. Certamente era por este motivo que meu pai recomendava que eu não fosse lá, mas nós íamos mesmo assim… aff, adolescentes…

Era mais uma tarde comum, saí de casa e fui encontrar este meu amigo em frente ao prédio onde ele morava, no bairro do Jardim Botânico. Não sei por qual motivo, talvez para aumentar o desempenho, mas levantei mais ainda o selim da bicicleta, que já estava no nível ideal antes. De lá seguimos pela Rua Pacheco Leão até alcançar o começo da subida da serra, pela Estrada Dona Castorina. Eu adorava descer de bicicleta muito rápido, mas tão rápido que colocava o boné que eu usava pra trás e o vento assoviava na aba do boné. E neste dia ainda tirei a camisa, amarrei na cabeça, e encaixei o boné por cima.
Começamos a subir a serra devagar, e comentei com meu amigo sobre o seguinte fato: toda vez que passávamos pelo trecho, na descida eu acabava passando sobre um buraco em uma curva, e desta vez iria prestar atenção para saber onde ficava exatamente aquela curva. Fomos subindo, subindo, passamos pela cachoeira, e continuamos. E nada de encontrar a citada curva.

Quando tínhamos percorrido aproximadamente metade do caminho, um veículo subiu devagar e passou por nós: era um Ford Belina, lotado, com vários homens suspeitos dentro, todos sem camisa e que nos observaram de cima a baixo enquanto o carro subia. Paramos e esperamos o carro passar. Quando eles viraram a curva mais à frente, nos passou a impressão de que estavam manobrando. Olhei para o meu amigo e falei “Cara, eles vão nos assaltar, vamos embora!”. Subimos nas bicicletas e começamos a descer. Só que aí aconteceu algo inesperado: a bicicleta dele enroscou a corrente durante a troca de marchas e eu não percebi, apenas acelerei, e muito. Tanto que meu amigo não conseguiu me alcançar depois, mesmo pedalando na descida: eu desci de forma insana!
Curva pra lá, curva pra cá, a grande reta próximo a cachoeira… naquele ponto alcancei uma velocidade louca, mas tão sem noção, que em uma curva pra direita eu nem consegui percorrer dentro da faixa, invadindo a faixa contrária. Certamente eu destruiria um veículo que estivesse subindo no sentido oposto, e anos depois eu até fui capaz disso, mais detalhes no link abaixo:
A adrenalina estava em níveis surreais, eu fiz esta curva para a direita gritando UHUUUULLL, e praticamente “deitado” como um piloto de motovelocidade em curvas de uma competição. Só que na próxima curva, para a esquerda, eis que surge na minha frente o danado do buraco na pista, que eu não vi enquanto subíamos.
Eu estava descendo em alta velocidade, no meio da faixa de descida, e me assustei quando o buraco apareceu na minha frente.
Isso soou meio estranho, eu sei…
Então, como ato reflexo, desviei para a direita, para fora da curva (não tinha mesmo como eu desviar para o lado contrário), só que joguei demais e, quando percebi que estava muito rápido freei. Só que no entorno do buraco tinha aquelas pedrinhas de asfalto, o que me fez derrapar e perder o controle. Dei um toque com o pé no chão para me estabilizar mas não teve jeito: continuei derrapando e me choquei lateralmente contra o meio-fio da pista, felizmente em um nível relativamente alto, devia ter uns 50cm de altura. Isso foi crucial, pois me choquei e voei ribanceira abaixo…
Quando aterrisei desci me arrastando pela montanha até parar. Enquanto estava tentando entender o que tinha acontecido, ouvi um barulho: era a bicicleta que ainda estava capotando e descendo atrás de mim, se chocando com a minha cabeça e caindo mais abaixo.
Ainda bem que coloquei a camisa na cabeça, embaixo do boné, funcionou como um capacete – pensei.
Logo depois meu amigo me gritava lá de cima “Vamos, cara, vamos embora, os caras tão descendo!” se referindo aos sujeitos da Belina. No impulso, e com o sangue quente, me levantei, desci o barranco, peguei a bike, coloquei no ombro e subi em direção à estrada. Quando coloquei a bike no asfalto, percebi que a roda estava empenada e o selim totalmente deformado, e comentei “Putz, a bike quebrou”. Meu amigo não falava nada. Olhei pra ele e ele com os olhos arregalados olhando pra mim, disse “Cara, você tá todo ferrado…”
Foi aí então que eu me dei conta e olhei pro meu corpo: do ombro até a canela, do lado direito do corpo, estava tudo ralado e sangrando. Do lado esquerdo do corpo, poucas lesões. Mas a pior foi na altura da cintura, na lateral direita, que proporcionou uma cicatriz que me acompanha até hoje. E aí então, o sangue esfriou, e me dei conta de como eu estava, comecei a sentir as dores dos ferimentos, felizmente e na maior parte superficial.
Droga, pra que eu fui colocar a camisa na cabeça? – pensei.
Sentei no meio-fio, me lamentando, e então vimos a Belina se aproximando, descendo devagar… quando passou em frente aonde eu estava sentado, os sujeitos arregalaram os olhos ao me ver todo ferido, e nada fizeram, continuaram descendo.
A partir deste momento fiquei preocupado em como se desenrolaria os próximos passos. Descemos caminhando e tratei de entrar no rio que passa ao lado da estrada, vindo da cachoeira, para lavar os ferimentos, principalmente o da cintura, pois entrou terra! Mas e depois?
Se eu fosse pra casa, distante e teria que ir a pé, meu pai brigaria muito comigo. Contudo… eu poderia ir para a casa dos meus tios e primos, também no Leblon, onde eu poderia tomar um banho e talvez receber os primeiros socorros. Eu já estava frequentando o local há algum tempo, e tinha certa cumplicidade com os meus primos. Tanto que, dois anos depois, minha prima Carol tornou-se minha namorada.
Naquela época não tínhamos telefones celulares, então da casa dos meus primos telefonei para meus pais, informando do ocorrido. Quando eles chegaram eu já estava de banho tomado e até com a roupa do meu primo. Carol fez curativos em mim. Consegui escapar da bronca do meu pai, mas ele não assimilou 100% da minha justificativa, ele achava que eu tinha sofrido uma queda de moto, apenas quando viu a bike toda arrebentada foi que acreditou um pouco, mas nem tanto. Somente alguns anos depois eu falei a verdade para ele, e ele disse que já imaginava…
BÔNUS: aquele ferimento na cintura me rendeu o apelido de “Robocop” na escola por algum tempo. Eu já estudava no Pedro Álvares Cabral, em Copacabana, onde cursei o segundo grau/nível médio, entre os anos de 1994 e 1996. E o ferimento me fez dormir de um lado só durante duas semanas, o curativo aderia ao ferimento, um horror. Além disso, fiquei andando com o corpo torto por causa disso, de forma meio robótica, e assim surgiu o apelido…