Bem vindos ao meu mundo

Brasil 2 x 0 Uruguai (1993)

Eu deixei de acompanhar futebol com mais assiduidade desde 2013, quando eu me lembro de qual partida vibrei e torci por uma vitória do meu time. Nem neste dia eu parei na frente da TV para assistir, e posteriormente não assisti nenhum jogo de copa do mundo que não fosse por algum evento social, convite, ou compromisso (como quando colocavam um aparelho de Televisão no trabalho).

Tenho uma opinião formada sobre futebol, que pode ser até polêmica e até mesmo estranha, principalmente por ver coisas que poucos, ou talvez ninguém, vejam. Por exemplo: aquela falta de um jogador sobre o Neymar que o retirou de uma partida com um lesão na coluna. Não me lembro qual situação, ano ou adversário, mas acompanhando o lance vejo um lance imprudente, uma falta feia e perigosa, mas talvez não intencional (se Neymar não estivesse no lance o adversário dominaria a bola, pulou para isso). Mas isso é outra história, preciso até ver novamente para confirmar minha impressão.

Então, voltando ao assunto, desde criança eu acompanhava futebol e torcia. Lembro de partidas memoráveis, mas curiosamente nunca fui assistir o meu time em estádios. O primeiro e mais antigo jogo que eu me lembre de assistir em estádios, e foi no Maracanã, foi um Fluminense x Ponte Preta, ano em que o tricolor foi campeão (1984?). Depois disso, e após 2013, não assisti futebol em copa do mundo, nem em olimpíadas, principalmente por que sempre soltam (inexplicavelmente) fogos de artifício e eu sempre precisei proteger meus filhotes caninos, tentando nos refugiar em algum lugar fechado e mais calmo.

Contudo, tenho muitas lembranças de partidas memoráveis, e abaixo contarei sobre um jogo especial, que poderia tirar a Seleção Brasileira pela primeira vez de uma Copa do Mundo caso não vencesse: Brasil x Uruguai, em 19 de setembro de 1993, um domingo em que eu estava voltando da cidade de Quissamã, onde residem meus parentes paternos, com minha família.

Me lembro que deixamos para voltar exatamente no horário do jogo para evitar pegar algum congestionamento. Como a viagem duraria mais do que a duração da partida, poderíamos seguir viagem livre e com pouco risco de enfrentar alguma obstrução próxima ao estádio (pois passaríamos, pelo menos, duas horas depois do fim da partida. E assim foi. Lembro que paramos em Casimiro de Abreu para um rápido lanche e ir ao banheiro, e na TV do local vi Romário chutar a bola no travessão. Jogo 0 x 0 até aquele momento, e só fomos saber o que tinha ocorrido ao chegarmos em casa.

Abaixo transcrevo a ocasião e a partida, que já foi dita pelo próprio Romário como a melhor partida da vida dele, e logo abaixo dois vídeos sobre o assunto: um especial feito pela TV Globo sobre aquele dia, e outro com os lances e melhores momentos apenas do Romário.

Eu admito que como pessoa não o admiro muito, mas como desportista que resolvia, isso ele era mesmo, de dar parabéns.

“Para quem quer recorda, conhecer, ou não era nascido e não viu aquele épico confronto da seleção brasileira contra o Uruguai em 1993, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, vou falar sobre um duelo que transcendeu a mera disputa por uma vaga e se incrustou na memória afetiva da nação. Falo de um embate carregado de tensão, onde a possibilidade real de o Brasil ficar de fora do maior palco do futebol mundial pairava sobre o Maracanã.

Aquele clássico sul-americano, por sua natureza sempre prenhe de rivalidade, já carregava um peso considerável. Contudo, o que realmente o elevou ao patamar de jogo lendário foi o cenário dramático que o envolvia. A campanha brasileira nas eliminatórias se mostrava tortuosa, repleta de tropeços inesperados. Em um grupo onde se esperava um domínio canarinho, Brasil e Uruguai se viram em uma situação delicada, permitindo que a Bolívia, impulsionada pela dupla infernal de “El Diablo” Etcheverry e Erwin Sánchez, chegasse à rodada final com os mesmos dez pontos de ambos, ostentando ainda uma vantagem nos critérios de desempate. Para aumentar a apreensão, a Bolívia tinha pela frente um confronto com o Equador, onde um empate lhe seria suficiente, enquanto brasileiros e uruguaios se digladiavam por uma única vaga em um Maracanã pulsante de nervosismo.

A seleção brasileira desembarcou naquele jogo sob uma aura de desconfiança, alvo de severas críticas pelo futebol aquém do esperado que vinha apresentando. A campanha amargava a inédita derrota para a Bolívia e um primeiro turno de atuações pálidas – agravado por uma tabela peculiar que forçou o Brasil a disputar suas quatro primeiras partidas longe de seus domínios. Apesar desse panorama sombrio, a torcida compareceu em massa ao Maracanã, transformando o estádio em um caldeirão de apoio incondicional durante toda a batalha. Diante dos resultados paralelos da rodada, um empate garantiria a classificação, mas uma vitória seria crucial para injetar moral e confiança em um time cambaleante.

E a vitória veio, esculpida com a genialidade de Romário. Curiosamente, marcava sua estreia naquela edição das eliminatórias. Desavenças com o técnico Parreira o mantiveram afastado das convocações desde 1992 (uma decisão que, convenhamos, até hoje soa incompreensível). Em uma entrevista ao Estadão, o próprio Romário revelou a complexidade de sua chegada: “eu sabia que era um jogo em que eles (Parreira e Zagallo) não tinham outra opção e que eu era a última esperança. Só que quem me convocou mesmo foi o Ricardo Teixeira (presidente da CBF). Descobri isso depois”. Questões à parte, o craque desembarcou diretamente de Barcelona, ungido como o salvador da pátria.

A partida em si foi um retrato fiel da tensão que envolvia um clássico contra o Uruguai, adversário tradicionalmente aguerrido e incômodo. Um jogo truncado, marcado por lances de catimba, com um árbitro por vezes hesitante em suas decisões… ingredientes que condimentam um confronto rumo à imortalidade na memória dos torcedores.

Até os vinte minutos da etapa final, o Brasil controlava as ações, mas o placar teimosamente permanecia zerado. O goleiro uruguaio, Siboldi, protagonizava uma atuação memorável, contando ainda com a providencial ajuda da trave em alguns lances cruciais. Esses fatores elevavam ainda mais o nível de ansiedade da torcida e dos jogadores brasileiros. Em contraste, Romário parecia alheio à pressão, exibindo um futebol solto e descompromissado, como se disputasse uma partida recreativa com amigos no fim de semana.

Logo nos primeiros minutos, já havia brindado o público com uma caneta e um chapéu desconcertantes no meio-campo, demonstrando uma serenidade impressionante. Ainda na primeira metade do jogo, tabelou com Raí, que desferiu um lançamento magistral, e com um toque sutil tentou encobrir o goleiro, vendo a bola caprichosamente explodir no travessão. E, para completar, sofreu um pênalti flagrante que inexplicavelmente não foi assinalado pela arbitragem.

Além do Baixinho, Branco, Bebeto (em três oportunidades) e Jorginho esbarraram nas defesas milagrosas de Siboldi. O segundo tempo trouxe consigo mais intervenções espetaculares do arqueiro uruguaio. Ciente de que o empate não lhe servia, o Uruguai se viu forçado a adotar uma postura mais ofensiva, abrindo espaços preciosos para o ataque brasileiro.

O técnico uruguaio, numa ousada tentativa de mudar o panorama do jogo (numa época em que a substituição de um zagueiro por um atacante representava uma mudança radical de estratégia), promoveu uma alteração na defesa. No primeiro ataque do Brasil após essa modificação, Mauro Silva desferiu um lançamento preciso para Bebeto, que, com inteligência, conseguiu encontrar a CABEÇA (!) de Romário no meio da zaga celeste. O Maracanã explodiu em um uníssono de alegria com o gol que decretava o 1 a 0, a vaga na Copa estava garantida e Romário, com sua genialidade, reafirmava para o mundo que a escalação ideal da seleção era ele e mais dez.

Com a vantagem no placar, o jogo ganhou um pouco mais de tranquilidade para o Brasil, muito em função da necessidade premente do Uruguai de buscar dois gols, uma situação tática que nunca foi a predileta da Celeste Olímpica.

Em um lance que se tornou emblemático, Mauro Silva roubou a bola no meio-campo e, mais uma vez, executou um lançamento primoroso para Romário – um passe de três dedos, sob pressão, na medida exata para o Baixinho, uma pintura de lance. O craque da área, com sua maestria característica, driblou o goleiro Siboldi, que ainda tentou desesperadamente agarrá-lo, e, livre de marcação, empurrou a bola para o fundo das redes, correndo em seguida para celebrar com a torcida em êxtase.

Revendo aquele jogo com a perspectiva de hoje, após sabermos o desfecho daquela campanha (o marco zero da quebra do jejum de 24 anos sem um título mundial), é surpreendente constatar que aquela seleção era alvo de tantas críticas. O time contava com a solidez de Taffarel no gol (e ponto final); a garra de Jorginho, a elegância de Ricardo Gomes, a segurança de Ricardo Rocha e a categoria de Branco; a combatividade de Dunga, a visão de jogo de Mauro Silva (um jogador que seria titular absoluto com a camisa 10 em qualquer seleção do mundo atualmente), a classe de Raí e a versatilidade de Zinho (dispensam maiores apresentações); a velocidade e o faro de gol de Bebeto; e, coroando o ataque, o gênio inigualável de Romário.

É inevitável a comparação com os resultados sofríveis da seleção nos dias atuais, mas é difícil conceber que o Brasil daquela época fosse tão questionado. Aqueles jogadores poderiam enfrentar a Alemanha de hoje vinte vezes e dificilmente sofreriam uma derrota por um placar agregado tão elástico como o fatídico 7 a 1. Uma seleção brasileira que vestia a camisa amarela por dentro do calção azul, com meias brancas e onze pares de chuteiras pretas. Cabelos bem cortados, sem ostentação nas redes sociais e com uma seriedade implacável dentro de campo.

Um contraste gritante com os tempos atuais. Uma diferença abissal!”

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